domingo, 19 de agosto de 2012

Violetas e Bruma


Estava tudo escuro, pulei uns pequenos obstáculos e tropecei em outros. Estava mesmo escuro pra diabo. O ar naquela casa estava praticamente tóxico, não suportava nada mais daquele lugar. Não deixei bilhete, nem nada. Primeiro que se acendesse alguma luz pra escrever alguém poderia acordar, e segundo que não tinha a mínima vontade de escrever algo para aquele bando de cretinos. Parti sem adeus.

Saí daquele abrigo e me adentrei num táxi amarelo. Pedi que me levasse até o cemitério rochedo. Lá deixei flores no túmulo de meus pais e segui viagem para não sei onde. Disse ao taxista para me levar ao lugar mais bonito que ele conhecesse e não consegui nem ensaiar uma conversa com o velho, logo estava dormindo, estava cansado pra burro. Acho que sonhei imaginando a cara do Félix vendo que faltava um órfãozinho querido naquele inferno que a gente morava. A gente, é... aliás, vou sentir falta demais da aninha. Conversamos antes da minha fuga do orfanato, foi uma daquelas conversas que ninguém gosta de ter na vida. Éramos e ainda somos namorados, e sempre fomos assim, desde que meus pais morreram e me mandaram para o orfanato. Os pais dela morreram num acidente de trânsito e foi mandada para o orfanato uma semana depois de mim. Isso faz 5 anos, agora estou com 16 e ela com 15.

Mas depois conto mais sobre isso, o que importa agora é que finalmente chegamos no lugar mais bonito que o taxista conhecia. Pena que ainda era de madrugada, mas ele disse que a vista de lá era linda. Paguei o táxi e fiquei ali. Era um bosque ou algo que o valha, o lugar tinha um cheiro tão agradável que me fazia lembrar o perfume da minha mãe quando íamos sair de casa nos finais de semana. Como não tinha lugar para ir e sabia que não fariam questão de me procurar, dormi ali mesmo, enrolado em alguns cobertores que tinha levado, pois já estava praticamente congelado ali. Acordei com uns pássaros malditos cantando e me bicando o corpo. Fiquei impressionado, o taxista realmente estava certo, a vista era realmente linda. Tinha uma paisagem toda cinematográfica e tudo mais, com algumas violetas lindas e uma bruma que dava ao lugar uma beleza incrível. Tirando os momentos com a aninha, acho que foi um dos poucos momentos nesses cinco anos que me senti vivo e que o mundo era um lugar bom. Os raios de Sol cortavam o céu, quase cortavam meu corpo também, pois eu não me aguentei e desandei a chorar, meu corpo estava doendo de ver aquilo tudo, era uma visão totalmente diferente da minha idéia de vida, pelo menos da vida no orfanato, aquele negócio realmente me traumatizou e me deprimiu por muito tempo. Mesmo assim não sei bem o porquê do choro, aliás, quase nunca sei por que estou chorando, só sei que estou e quando começo é difícil parar. Depois de secá-las com minhas mãos úmida de grama, tentei pegar no sono, pois assumo que uma das poucas coisas que gosto nessa vida é de dormir. Acho que até cochilei um bocado, mas eu já estava saciado, então levantei, arrumei meus cobertores e lençóis, tirei uma foto daquele lugar lindo, resolvi que ia mandar para a aninha em forma de cartão postal, até tentei escrever atrás dela 'violetas e bruma'
mas a caneta estava falhando.

Finalmente encontrei a linha da estrada de novo e consegui carona com um caminhoneiro que tinha cara de gordo suado, sabe do
que estou falando? Aqueles gordos com barba mal-feita, um rosto suado, cabelo ralo e uma baita duma pizza maracanã embaixo
do braço e falando só coisas pervertidas? Então, foi com um desses que peguei carona. Não era no todo uma má pessoa, via-se
que não era um cretino como o Félix. Me disse que a próxima cidade estava perto e ia parar lá para abastecer o caminhão. Gente
fina. Quando chegamos na cidadezinha que não lembro o nome, agradeci o gordo suado e resolvi comer em algum lugar, não comia
desde que saí do orfanato.

Entrei numa lanchonete simpática, pedi um café e pão na chapa, a única que coisa que me desce de manhã. A atendente era tão
simpática e me serviu um pão na chapa tão bom que quase me apaixonei por ela. Claro que isso é brincadeira porque eu amo
mesmo a aninha, mas eu estava simplesmente morrendo de fome, tomara que ela não leia essa parte. E não faz o menor sentido
porque não foi nem ela que preparou o tal pão na chapa, talvez tenha sido um gordo suado, mas eu tava com muita fome pra
pensar numa hipótese nojenta dessas. Depois daquela refeição, resolvi que ligaria para a aninha, pois sabia que aquele gordo do Félix estava dormindo como um porco e a aninha estaria acordada toda afobada querendo saber onde e como eu estava. Mas antes pedi a atendente uma caneta para finalmente escrever 'violetas e bruma' no verso daquela foto que eu tinha tirado naquela manhã. Mas ela não tinha caneta. Então resolvi ligar, pois estava morrendo de saudades de ouvir aquela voz que só ela tem.

- Alô?
 - Alô, Omar!?
 - É, sou eu, é que peguei um celular emprestado aqui.
 - Amor, como você tá??
 - Eu to bem, princesa do meu coração felpudo de pelúcia.
 - Onde você tá? Você dormiu aonde?
 - Eu to em algum lugar perto daí, só sei disso, apesar de ter pego umas estradas que nunca vi na vida, estou perto, pera...
 - Ahn?
 - Eu to em Nova Iorque.
 - Ai, como odeio suas brincadeiras idiotas.
 - E como eu amo te irritar!
 - Bobo.
 - To em Birmingham mesmo, aninha.
 - Ah, então você tá perto ainda.
 - É... e como está aí? O que acharam da minha fuga?
 - Acho que não deram muita bola.
 - Imaginava isso mesmo.
 - Mas eu to com saudades de você.
 - Eu também, você sabe disso, mas ainda acho que vai demorar para nos encontrarmos. Acho que devo desligar, não quero que pensem
que você possa estar falando comigo e comecem a te encher o saco.
 - Tudo bem, Omar. Eu te amo, você sabe disso.
 - Eu te amo também, aninha.
 - Beijos.
 - Beijos mil.
E assim terminamos a conversa.

Saí dali e percebi que não tinha nenhum lugar para ir, realmente. Não tinha dinheiro e faltavam poucas horas para almoçar e não estava querendo passar fome de novo. Resolvi pegar meu violão e começar a tocar na rua, é deprimente isso, e qualquer coisa me deixa triste pra caramba, mas gostava de tocar violão e precisava de dinheiro. Toquei umas musiquinhas ridículas, como a maioria que sei tocar, não sou lá muito bom no violão, mas se o cara sabe 3 acordes as pessoas já acham o cara um sabichão no instrumento. Depois de várias músicas cretinas, já tinha um dinheiro para garantir o meu almoço. Ainda faltava algum tempo, pois ainda estava sem fome e resolvi andar pela cidade. Era uma cidade bem simpática, fria pra caramba, mas nessa época do ano faz frio no país todo mesmo. Como era perto do Natal, a cidade estava toda enfeitada e brilhando. Se tem outra coisa que gosto nessa vida é do Natal, acho a festa mais marcante e bonita de todas, as pessoas ficam mais generosas e tudo mais. Mas acho que o que mais odeio é depois do Natal, Reveillon, essas coisas todas... sempre percebo claramente o quão cretinas as pessoas são, pois aquilo de 'feliz natal' ou 'feliz ano novo' é tudo uma merda só. Hipocrisia é algo que me deixa com vontade de vomitar. Mas sempre me deixo contaminar pelo espírito natalino, afinal não dá pra ser ranzinza sempre.

Enquanto vadiava pelas ruas, tive um acesso de risos quando vi um garotinho se espatifar no chão. Todos deveriam perceber como as quedas das crianças são milhões de vezes mais engraçadas que as quedas dos adultos, elas tomam um susto tão incrível que chega a dar pena. Eu sei que é maldade, mas não foi um tombo sério. A criança chorou um pouquinho, mas logo se levantou e correu para os braços da sua mãe. Seria tão bom se a nossa vida fosse assim, a cada queda nossa a gente só sofresse um pouquinho mas tivesse alguém para se apoiar sempre e fazer com que tudo ficasse bem em um piscar de olhos. Dava pra ver que aquele era um garotinho de sorte. Me senti culpado por rir da queda dele, mas depois de uns cinco minutos nem lembrava mais do acontecido. Só conseguia pensar que estava muito tarde e eu não tinha aonde dormir! Merda!

Fiquei sabendo de um lugar que abrigava pessoas sem-teto, não era tão longe assim. Quando cheguei lá, tinha uma fila incrível. Tinha várias pessoas ali, de todo tipo: brancos, negros, crianças, idosos, pessoas que eu não sabia definir o sexo... só sei de uma coisa, todo mundo que tava ali tava tão fodido quanto eu... ou até mais. Resolvi puxar papo com uma garotinha de uns 10 anos enquanto a sua mãe reclamava que estava com poucos cigarros para fumar.

- Qual o seu nome? - ela me perguntou com uma voz firme
- Omar. E o seu?
- Linda.
- Oh, que nome bonito, que nem o da atriz do filme 'O Exorcista'. Ela é bonita se você tirar aquela maquiagem toda dela, sabia?
- Que isso? Exorcista?
- Ahm... é um filme sobre uma menina... que fica... ahm... meio maluca. Mas é muito bom, meu filme de terror favorito.
- Eu odeio filme de terror, eu vi um uma vez quando a gente ainda tinha uma casa. Tinha um garoto que era muito malvado, ele matava todo mundo. Eu chorei muito. Ele era mau.
- Ah sim, o Bebê de Rosemary... é muito bom, mas você não deveria ver esse tipo de filme. Mas você gosta de fazer o que, Linda?
- Eu gostava de brincar de casinha com as minhas bonecas, mas depois que papai foi embora, a gente ficou com muitas dívidas e a minha mãe perdeu a nossa casa. Aí agora a gente fica pedindo dinheiro na rua e quando vai chegando a tarde a gente corre pra cá torcendo pra que tenha vaga pra gente. Acho que hoje a gente vai acabar dormindo na rua.
- Na rua??? Mas eu tô atrás de você na fila, eu vou dormir na rua também?
- Sim.
- Merda... e agora???
- Você não deveria falar essa palavra feia, meu pai costumava falar muito isso quando batia na minha mãe.
- Desculpa... bom, se eu vou ter que ficar na rua, é melhor eu partir e procurar outro lugar pra ficar. Boa sorte pra você.
- Tchau, Exorcista!

Hahaha Exorcista. Menina engraçada. Fico imaginando o que a mãe dela vai pensar quando contar que viu o 'Exorcista' na fila para entrar no abrigo. Ela falou algo sobre seu pai bater em sua mãe... que coisa, uma menina tão nova e já tem um trauma tão grande assim... a vida às vezes não é nenhum pouco justa mesmo. Se eu ficasse rico da noite pro dia, eu a ajudaria. Mas é melhor parar de sonhar. Melhor procurar um lugar para poder descansar, acho que vai ter que ser nessa praça aqui mesmo. Espero que os guardas não me expulsem daqui, eu já tô morto de cansaço, não quero ter que ir pra outro lugar essa noite. Só quero um pouco de paz. Tentei pegar no sono, mas estava um frio absurdo, coisa de uns 5ºC. Eu tinha levado uns casacos, mas era pouco... você já tentou dormir na rua? É horrível. Mas era o que tinha. Forcei mais um pouco e consegui dormir.

- Ei, garoto...

Era algum sonho?

- Ei, você... acorda!

Era algum policial? Que sorte a minha...

- Você não tem nenhum lugar para dormir hoje?

Era um senhor de uns sessenta anos, chuto eu. Seu bigode era engraçado, tinha pelos grossos, parecia uma taturana entre seu nariz e sua boca. Parecia ser uma pessoa boa.

- Quem é você? - só consegui perguntar isso, ainda estava meio grogue de sono
- Meu nome é Steve. Prazer. Se você quiser, eu moro nessa casa aqui - apontou - com a minha esposa. Está uma noite muito fria, rapaz. Venha comigo.

Eu fui. Que inocência, né? O cara podia ser um pedófilo, um assassino e eu fui inocentemente. Tava com tanto sono, tanto frio que nem pensei direito. Mas quem diria, esse homem realmente seria o meu salvador.

- Marta! - gritou Steve - Temos visita!
- Visita? A essa hora?
- Encontrei-o na praça, estava dormindo na rua! Vê se pode uma coisa dessas!

Dona Marta apareceu na cozinha, estava com um semblante abatido, porém terna. Não me sentia um intruso lá, pelo contrário. Isso era bom e, de certa forma, inédito na minha vida.

Era dia de sopa. Eles estavam vendo um programa sem graça pra burro na televisão, do tipo que apenas as pessoas de mais idade conseguem suportar. Comi uns três pratos de sopa com pão, fiquei até sem graça, mas aquela comida era uma comida de verdade!

- Muito obrigado, dona Marta! Estava delicioso! A senhora é uma cozinheira de mão cheia!
- De nada, Omar, você é muito gentil.

De repente, seus olhos ficaram marejados. Não entendi. Eu falei algo errado? Steve olhou pra mim e depois abraçou Marta e disse que se eu quisesse, poderia ver um pouco de televisão. Eu aceitei, pois parecia que eles queriam conversar sobre algo sem que eu visse.

A casa era simples, tinha um cheirinho de gelol, sabe? Era um pouco incômodo, mas meia hora lá dentro e eu já nem sentia mais o cheiro. Percebi vários retratos na estante de um garoto de uns 13 anos com Marta e Steve, me pergunto se é o filho deles ou algo assim. O sofá deles era pequeno, para duas pessoas. Sentei ali, mas não tive coragem de mudar de canal, deixei ali mesmo. Acabei dormindo de novo, o sofá era pequeno mas era muito confortável. Irresistível.

Acordei no outro dia na cama. Que droga. O Steve deve ter me trazido pra cá enquanto dormia, parece coisa de criança isso, né... mas fazer o que, né. Agora já foi. Desci as escadas e vejo a dona Marta de costas mexendo alguns ingredientes na pia da cozinha.

- Olá, Omar! Acabou dormindo no sofá, né? hahaha O Steve te carregou pro quarto logo depois de você adormecer.
- Oh.. me desculpe por isso, não queria dar trabalho para vocês de forma alguma. Bom, queria agradecer por vocês terem me acolhido aqui, mas hoje eu vou encontrar um lugar para ficar. Serei eternamente grato à senhora e ao Steve, ok? Mande um abraço pra ele.
- Como assim, mocinho? Você não pode sair assim. Você não tem nem onde ficar, vai dormir na rua de novo? Eu não posso deixar isso acontecer, e nem o Steve aceitaria isso. Você fica aqui.
- Sério?
- Claro, Omar!
- Muito obrigado, dona Marta! A senhora é um anjo!
- Não precisa agradecer, filho. Você está em casa.

Filho. Ela me chamou de filho. Isso realmente mexeu comigo. Pela primeira vez na vida, alguém me chama de filho. Me senti incrivelmente feliz com isso. Queria abraçá-la, mas isso seria muito estranho. Só pude dizer:

- Obrigado!

Tomei café da manhã com a dona Marta. Era pão com manteiga e café. Meu café da manhã preferido ao lado de pão na chapa e café. Contei um pouco da minha história para ela, ela pareceu se importar bastante comigo. Ela era uma boa pessoa.

- ... e foi assim que eu cheguei aqui, dona Marta.
- Wow, que história, Omar... aliás, não precisa me chamar de 'dona Marta'. Pode me chamar apenas de Marta, tudo bem?
- Tudo bem... Marta.
- Isso, bem melhor.

Depois eu voltei para o quarto em que dormi a noite passada. Estava tudo arrumado, tinha algumas coisas que pareciam ser de um quarto de um adolescente realmente.

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